"Tenho muito medo de pessoas ultra-motivadas. Muito. Aquelas que têm
agendas (electrónicas, de preferência), que fazem plannings, que sabem
gerir as prioridades, que as fintam e perseguem por entre horários
intensos, entre as exigências profissionais, pessoais e familiares.
Essas pessoas intimidam-me: quando vejo uma, mudo de passeio. Tenho medo
que me roubem o ócio e o deitem no lixo. Que me enxovalhem o anhanço,
me amesquinhem a languidez. Depois, quando elas já lá estão, longe, numa
atitude muito madura, faço troça. Troço muito das pessoas motivadas,
sempre aos pulinhos, sempre carregadas de energias positivas!, que dão
atenção a tudo e todos sem se esquecer de si mesmas!, plenas de
alimentação saudável!, que ingerem as suas vitaminas!, dizem não ao
supérfluo e que os adormece!, como doces e farinhas. Hum, doces e
farinhas. Hummm, farinhas doces...
Porque eu, na verdade, e aqui me apresento de baraço ao pescoço, sou uma
mole. Uma pasta viscosa, uma ameba gigante. Um pudim de preguiça, uma
papa de desmotivação, polvilhada de pepitas de borreganço. Eu não tenho
iniciativa, ambição, vontade de triunfar. Eu não almejo criar riqueza,
acrescentar valor: sou uma pessoa que se contenta com a mediania, que
vive na sua zona de conforto e gosta muito dela. É muito fofa e
quentinha, a minha zona de conforto, cheia de almofadinhas e mantas
macias. Pondero apenas tornar-me uma fera batalhadora se me negarem o
direito a essa zona de conforto, da qual renego o coaching e abraço o
sofazanço. Aliás, cada vez que ouço falar em coaching sofro de uma
brotoeja incontrolável, que só passa com um chocolatinho. Deixem-me 'tar
sugadita é o meu lema.
Por vezes, mas só por vezes, acordo desta simpática letargia.
Normalmente durante esses períodos de brotoeja: enquanto me coço
violentamente, grito que não tem mal nenhum!, nós, os fraquinhos de
cabeça, que não arregaçamos mangas, que não damos murros no cimento,
também temos direito à vida!, também produzimos, sim senhora!, vendemos
horas de trabalho por um ordenado, qual a vergonha?, temos utilidade sim
senhora!, somos gente!, somos necessários!, somos os que fazemos as
coisas invisíveis, sem as quais vocês, ó empreendedores, não conseguem
empreender porra nenhuma! Depois aconchego-me. Dou um golinho de chá
bom. Continuo a fazer - bem, de preferência, que trabalho bem feito
faz-se só uma vez - o que sei fazer. E, a esses outros, fico a vê-los
passar. Muuuuito depressa. A empreender aqui e ali, nem que por
palavrinhas excitadas e ocas. Adeus, adeus, língua de fora.
(no meio do bruá dos excitadinhos, lembro-me muito daquela tirinha da
Mafalda, em que o Miguelito pede um minuto de silêncio, se abraça de
olhos fechados, e diz que precisava apenas de um momento na sua paz
interior.)"
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