Qualquer coisa sem interesse e com data de validade

03/04/13

Porque eu sou muito sensível ao tema "se não arranjas um trabalho é porque és uma falhada de primeira", precisava deste texto para não ficar tão deprimida

"Tenho muito medo de pessoas ultra-motivadas. Muito. Aquelas que têm agendas (electrónicas, de preferência), que fazem plannings, que sabem gerir as prioridades, que as fintam e perseguem por entre horários intensos, entre as exigências profissionais, pessoais e familiares. Essas pessoas intimidam-me: quando vejo uma, mudo de passeio. Tenho medo que me roubem o ócio e o deitem no lixo. Que me enxovalhem o anhanço, me amesquinhem a languidez. Depois, quando elas já lá estão, longe, numa atitude muito madura, faço troça. Troço muito das pessoas motivadas, sempre aos pulinhos, sempre carregadas de energias positivas!, que dão atenção a tudo e todos sem se esquecer de si mesmas!, plenas de alimentação saudável!, que ingerem as suas vitaminas!, dizem não ao supérfluo e que os adormece!, como doces e farinhas. Hum, doces e farinhas. Hummm, farinhas doces...
Porque eu, na verdade, e aqui me apresento de baraço ao pescoço, sou uma mole. Uma pasta viscosa, uma ameba gigante. Um pudim de preguiça, uma papa de desmotivação, polvilhada de pepitas de borreganço. Eu não tenho iniciativa, ambição, vontade de triunfar. Eu não almejo criar riqueza, acrescentar valor: sou uma pessoa que se contenta com a mediania, que vive na sua zona de conforto e gosta muito dela. É muito fofa e quentinha, a minha zona de conforto, cheia de almofadinhas e mantas macias. Pondero apenas tornar-me uma fera batalhadora se me negarem o direito a essa zona de conforto, da qual renego o coaching e abraço o sofazanço. Aliás, cada vez que ouço falar em coaching sofro de uma brotoeja incontrolável, que só passa com um chocolatinho. Deixem-me 'tar sugadita é o meu lema.
Por vezes, mas só por vezes, acordo desta simpática letargia. Normalmente durante esses períodos de brotoeja: enquanto me coço violentamente, grito que não tem mal nenhum!, nós, os fraquinhos de cabeça, que não arregaçamos mangas, que não damos murros no cimento, também temos direito à vida!, também produzimos, sim senhora!, vendemos horas de trabalho por um ordenado, qual a vergonha?, temos utilidade sim senhora!, somos gente!, somos necessários!, somos os que fazemos as coisas invisíveis, sem as quais vocês, ó empreendedores, não conseguem empreender porra nenhuma! Depois aconchego-me. Dou um golinho de chá bom. Continuo a fazer - bem, de preferência, que trabalho bem feito faz-se só uma vez - o que sei fazer. E, a esses outros, fico a vê-los passar. Muuuuito depressa. A empreender aqui e ali, nem que por palavrinhas excitadas e ocas. Adeus, adeus, língua de fora.
(no meio do bruá dos excitadinhos, lembro-me muito daquela tirinha da Mafalda, em que o Miguelito pede um minuto de silêncio, se abraça de olhos fechados, e diz que precisava apenas de um momento na sua paz interior.)"

Sem comentários: